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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

06 meses.

Prestem atenção todos vocês.Era meu o corpo que ali estava debaixo de um emaranhado inóspito de ferros , tubos , aventais e olhares burocráticos da equipe médica.Por alguma razão , conservava ainda a lucidez e a consciencia , apesar da lentidão com que eu as processava.O seu pânico , o seu desespero , os seus comentários estúpidos de nada adiantaram , em nada construíram , pois era meu o corpo que ali estava . Mas , obrigado por pensar em mim. Muitas vezes eu senti o egoísmo se apossar de mim e , confesso , deixei-o se instalar.Auto-defesa , lembram...Sabe , eu não estava lá quando crucificaram o meu Senhor , mas sei de estórias.Sei dos pés calejados , do escárnio , das cusparadas , dos açoites , do seu sacrifício. Vi minha vida passar naquela cama de ferro , e tive a prova do amor superior , amor esse cuja incapacidade dos homens em dar é notória.Pareceu-me , certo dia , um anjo , a criatura aboletada ao meu lado . Ele sorria meio encabulado e dizia para que nada temesse , pois o meu Senhor estava comigo .Retribuí o carinho e procurei seguir . Não tenho seis meses , tenho uma vida inteira pra pôr pra fora.

domingo, 30 de março de 2008

Atheism is a tale told by an idiot

Réprobo sendo este escarlate céu
pairando com astúcia e maquinações ,
prestes a enganar com escretos e fel
os loucos curvados às humilhações .

Apartados do divino nesta micro- dimensão ,
aglutinam iniquidades com a fome das doenças
buscando nos corpos seus nichos de infecção
antes de martelarem suas sentenças .

Lentamente , cai o céu dos píncaros
e finca na terra toda a sua nódoa:
mofado pão disputado pelos cínicos ,
ignaros sobre o quê os fornica e engoda .

É espetáculo de gags avassaladoras :
entreatos de grand guinol duvidoso ,
sevícias de peles impedindo gozos
no bruxismo de angústias perturbadoras .

Respeito

Dou ao Espírito o respeito concernente
à sua elástica infinitude , criação
de um algo maior e transcendente
na efusividade de sua apreensão .

Guia da cegueira da carne perecível ,
ínfima matéria suscetível aos furos
intrínsecos a todo ser cognoscível
antes de virarem monturos.

Paira o Espírito na além -matéria ,
por Deus , de longe , observado
na eufonia característica dos adágios
desprovidos de secreções deletérias .

Sei do espírito a razão primeira de onde emana
a vontade de não passar ao largo desta finitude ,
fugás existir , mero sopro ante a magnitude
do Todo Maior que não se desmancha .

O corpo fala

Selado o gerenciamento dos temores:
distopia domesticada entre sombras ,
obliterações de péssimos humores
cuspindo suas imprecações nas mônadas.

Resguardo nenhum deposita neste corpo
suas profilaxias e admoestações...
antes tolhe os espécimes e as intuições
de antever o fundo do ôco ,
estuário de turva coloração
mal arranjado entre barrancos derretidos
que , do corpo , despencam sem emoção
pavimentando a malta de subnutridos .

Insonemaníaco

Subserviente à coriza
de obnubilações tensas ,
em fungados apáticos,
sobre cartilagens sêcas ,
aguardo , em preguiça , a aurora
sob um céu austero
de infinitos porquês
em uma cadeira de praia .
Tendo esgotos por oceanos ,
impaciente testo a escrita
na espera de um sol
que alivie neurotransmissores .

Levantar

Por hora , apenas a incerteza ,
a alma turva e o lago insalubre.
A chuva como se fosse limpeza
desabando ante o espírito rude.

Como se a tempestade ânimo fosse:
sopro de vida , sina de mortal.
gota a gota de fel um tanto doce
permeando o ar que tens por vital.

Basta um punhado de sal ,
dos olhos o filete tece
a borda tensa feito um mal
que se instalou como uma prece.

Se a certeza livremente age ,
rasguem-se as placentas das grávidas
para que o úmido amniótico do vale
conduza as luzes em rajadas .

O corte

Observo com desdém o corte ,
filete de carne inundando a mão.
Trinco os dentes como a dizer :_ Sou forte.
e lavo o talhe com água e sabão.

É ninharia o que prende minha atenção
na parca dor de quente dilatar
que não cessa sua vermelhidão
na tentativa de estancar.

Fraca a carne humana ,
ínfimo resíduo de algo superior
de onde tudo emana
suscitando a alguns terror.

Quando tudo o mais despedaça
deixando o homem nú , pobre e cego ,
o insensato busca em seu ego
uma solução que dele gargalha.

quarta-feira, 5 de março de 2008

estuprando um marginal

Moinhos de estrumes
moídos às vísceras
de agonizantes que grunhem
não importando as sevícias .

Triturados os ossos e cartilagens
entre bruxismos e blasfêmias
das gengivites expelidas
sob a forma de miragens .

Moto - perpétuo opressivo ,
labor incessante de destroços
em um mantra de ranger massivo
escravizando todos os esforços .

Ao fim do dia , o solo nodoso
exala silêncio e regurgitação
onde a terra , em anõmala digestão ,
expulsa as misérias e o horroroso.

Nova manhã desaba

Amanheceu em uma toada estranha ,
de decibéis em repetitivas cadências
açambarcando todas as excrecências
e partícipes de crimes e sanhas .

Turvo era o olhar do indigesto
aos primeiros raios retilíneos
lhe percorrendo o corpo num escrutínio
que , não fosse tenso , soaria funesto .

Feito uma explosão nuclear abissal ,
a luminosidade paralisava os sentidos
deste circunspecto em seus instintos
de insignificância animal.

Depauperado , sob ácida chuva inclemente,
falham os discursos e silogismos
que , do circunspecto , se resumem aos pruridos
talhados em um espírito impotente .

Incesto emocional

Desta incestuosa dependência emocional
trazes as feridas ainda frescas,
onde certa pusilânimidade primal
compartilha contigo todas as ceias ,
sem cerimônia alguma que te engane
no meio de goles , garfadas e lenços ,
visto que a paralisia e a sânie
são demônios te desejando sedentos .

"Por onde andas quando tudo o mais falha?
decerto urdes atalhos e apagas pistas
no vislumbre de não ser devassado
pelo tribunal que detém a tua ficha :
morto arquivo sem capa , empoeirado.

Trazes na testa a marca do insensato ,
invisível quelóide visível ao espírito ,
com um algo qualquer de aterrador e sinistro
que o leigo humano taxaria de inefável.

natimortos

Paridos os natimortos na aurora ,
coloração de matizes esmaecidos
mortificando o que se supõe ser desova
do que era o sangue de recém -nascidos:
novel excrecência logo gestada
entre as rachaduras do árido solo ,
espécie de útero sem colo
que acalanta tal ninhada .

Seiva , aqui , nem em sonho prolifera ,
antes se contrai , evapora
nos subterrâneos desta caverna
onde não se sabe dias , noites e horas .

Impassíveis , luz e trevas coabitam
em formas difusas e primitivas ,
parindo relações sem carícias
entre opostos que se atrofiam.

Um erro

Viestes com palavras de sensatez e inocência
de dentro de um coração contrito ,
não obstante o que ouvi foi decadência
lacrada em um músculo endurecido .

Parecia mel o que da boca gotejava ,
norteando o caminho de diversas trilhas ,
não importando o que, sobre mim, ruía
forçando o solo que , sob os pés , afundava .

Denotavas no olhar um zelo materno ,
sendo inexplicável as teias e espinhos
manchando íris e pupilas de infernos
que rugiam suas febres de famintos .

Tarde , dei-me conta dos enganos
perpetrados pelo imbecil em espasmos ,
em monólogos auto-sugestionados
despidos de orações e óleos santos .

inviabilidades seletivas

Matarão tua família essas indolências irrefreáveis
cerzidas por mãos e almas obssessivas ,
no destrinchar de ocultas trilhas
sob adágios de regências inviáveis .

Causarão o desnecessário estupor
na injusta medida de uma perseguição
com que os partícipes , pelos caputs , perfilam na formação
do conluio cremado por farpas e fedor .

Obstruídos estarão os filamentos e fontes
pelos quais se gestam fragâncias e irmandades:
casulo que acolhe as necessidades
tolhidas pelas carnes sem nome.

Retornará ao primeiro amor o sequelado ,
aquele que , em tal ninho, parido
urge caminhar desonubilado
ante o grand guinol do pernicioso circo .

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Separação

Separação é solitária senda ,
pousar o corpo em qualquer canto disponível .
Árduo repouso invisível , feito uma trágica lenda
de Hoffmanico agouro .

Separação , desmembramento ,
uma face familiar fendida ,
um desapontamento que alarga
a punção da ferida .

Separação é desejo
de falar coisas esquecidas
onde o medo , esse monstro ,
dá as cartas com que rouba .